MERKABAH - Recordar o seu corpo de Luz

- Por Pequena Shamballa.blogspot



Tradição Judaica


Somos muito mais do que somente seres físicos, materiais, vivendo uma vida “finita” em um determinado ponto do espaço-tempo. Somos Um com o Universo, conectados por uma rede de canais pelos quais, desde o corpo físico até os corpos mais sutis, flui a energia essencial que dá vida e forma a todas as coisas. A consciência dessa conexão nos permite acessar as informações e os percursos que nos levam aos outros planos de existência assim como construir os corpos que vão constituir nossa identidade multidimensional.

Esse processo pode ser chamado de ressurreição ou ascensão e só ocorre em estado de consciência plena, cósmica ou universal. Trata-se de uma escolha livre, de um processo reservado aos “eleitos” ou “auto escolhidos”. Merkabah é o “corpo luminoso”, a “carruagem celeste” que construímos por meio de nossa própria vontade, com os recursos energéticos disponíveis nas diversas dimensões de existência e atuação da alma.


Eis que eu digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal se revista de imortalidade.” 1 Coríntios 15:51-53

As Origens do termo Merkaba nas diversas tradições:

I – Tradição Cabalística: Na Cabala, tradição mística hebraica, o Merkabah é retratado como “Trono ou Carro de Deus. Um veículo que podia subir e descer através de diferentes câmaras ou palácios celestiais conhecidos como Hekhalot”- (Aryed Kaplan, “Meditation and Kabbalah, 1982)

São diversos Hekhalot e, no último desses, revela-se a Divina Glória de Deus.

O TRONO DE DEUS é uma metáfora esotérica e é um tema comum às três grandes religiões originárias de Abrahão: judaísmo, cristianismo e islamismo;

Ainda no tempo dos fariseus, a mística judaica destinava duas disciplinas para o estudo desse Tema : Maaseh Bereshit e Maaseh Merkaba.

1.Maaseh Bereshit. Abordava os primeiros capítulos do Gênesis, detendo-se na Doutrina da Criação para conhecer os mistérios ocultos nos primeiros capítulos das Escrituras acerca dos seres criados.

2. Maaseh Merkabah. Abordava o conhecimento dos seres e criaturas mencionados no primeiro capítulo de Ezequiel. O profeta afirmava ter visto a imagem do carro celeste sobre o qual está o Trono de Deus, sustentado por seres do mundo superior.

Estes seres, os “quatro seres viventes contendo quatro rostos”, seriam anjos “Querubins” que se apresentavam sob a forma animal e humana: o Leão, a Face do Homem, o Touro e a Águia.

Maaseh Merkabah ou Misticismo Merkabah foi um dos caminhos praticados pelos primeiros místicos do Judaísmo, por meio dos quais a tradição Cabalística revelou-se ao mundo. Baseado na visão de Ezequiel que tem sido interpretada com um voo místico até o Trono de Deus. Os místicos que se inspiram no judaísmo assim como os cabalistas criaram uma técnica de meditação tendo o símbolo do Merkabah como ponto focal. Essa meditação conduz uma viagem interior para os “sete palácios” – Hekalot - usando os nomes mágicos secretos para garantir a passagem segura por cada um deles. 

Esses procedimentos e fórmulas místicas só eram conhecidos por estudiosos da Cabala. Contudo, os textos relevantes do Hekhalot Maior - o principal trabalho dos místicos do Merkabah - foram publicados no livro intitulado "Meditation and Kabbalah" (1982), da autoria de Aryeh Kaplan.


Ezequiel e a Merkabah:

Foi às margens do Rio Chebar ou Qebar, que o profeta Ezequiel quando exilado na Babilônia teve a experiência que viria ser inspiração para os místicos de diversas tradições, durante séculos. Sua experiência é assim narrada na Bíblia (Ez:1: 4-6)


“Olhei, e eis que um vento tempestuoso vinha do Norte, e uma grande nuvem, com um fogo a revolver-se, e um resplendor ao redor dela, e no meio uma coisa como de cor de âmbar, que saía dentre o fogo. E, do meio dela, saía a semelhança de quatro animais; e esta era a sua aparência: tinham a semelhança de um homem. E cada um deles tinha quatro rostos, como também, cada um deles, quatro asas.”

O profeta visualizou o “carro de Deus”, a Merkabah, no meio das nuvens. Pareceu-lhe um objeto brilhante, suportado em quatro rodas giratórias feitas de topázio. As quatro criaturas aladas estavam ao lado dessas rodas e, acima delas, uma abóbada que brilhava como cristal. Ao vento que vinha do norte, Ezequiel chamou “grande nuvem de fogo que se revolvia sobre si mesmo.”

Para Elizabeth Clare Prophet (31, 2002)  Deus usa o fogo sagrado para estabelecer uma conexão com aqueles, filhos e filhas, que “deseja chamar e ungir para que realizem seus propósitos divinos”. Tem sido assim desde Moisés e sua visão da Sarça Ardente. Para que isso ocorra faz-se necessária uma “caminhada interior” por meio da meditação e da entrega a Deus e ainda, que essa caminhada seja aceita e "agradável a seus olhos". Tanto Moisés, como Enoque e Ezequiel, fizeram tal caminhada, foram “profetas” para seu povo e ungidos como “mensageiros”, portadores das mensagens divinas.

A Ezequiel, Deus permitiu contemplar os sete Hekhalot, palácios divinos, ou planos celestes, até chegar ao Trono e “ver” Deus, face a face. A "correção do seu coração, a integridade de sua alma e o brilho do seu espírito" foram os atributos que naquela época distinguiu Ezequiel dos outros homens.


Meditação Merkabah ou Devekut:


A meditação Merkabah – ou Meditação Devekut - tem a finalidade de conduzir e iniciar o praticante no segredo do Hekhalot. Segundo o rabino Roshveder¹, trata-se de orientar a ascensão aos “palácios celestiais em vários níveis de existência e de dimensões paralelas”. Esse roteiro de ascensão, embora reservado aos seguidores da Cabala, assemelha-se às experiências de “arrebatamento”, narrada por místicos cristãos. Também reitera  experiência do “voo noturno” de Maomé, o profeta islâmico ao ser  “conduzido aos céus” pelo Arcanjo Gabriel:

"E nesse momento, o Profeta Muhammad (s.a.w.) sentiu, então, ser acordado pelo arcanjo [i] Gibrail (a.s.) [/i], cumprimentado e colocado na garupa de um cavalo celeste, cujo nome era "Burâq. "A Viagem Noturna" (al-isrá) teve uma paragem em Jerusalém, onde hoje se encontra a Mesquita de Al Aqsa. Depois de orar, subiu por uma escada e eis que foi elevado aos céus."

(1. Roshveder, Eliel. HEKHALOT Subida aos palácios celestiais . Edição do Kindle.)


A Escada para os Hekhalot - estados meditativos


O rabino Roshveder afirma que a meditação para subir aos palácios celestiais eleva nossa consciência em relação ao mundo da terceira dimensão e nos aproxima do Criador dos Mundos deixando para trás nossas “peles de serpente”. Segundo ele, “peles de serpente” é uma designação cabalista que identifica padrões adquiridos seja pela via hereditária contida no DNA ou pelo convívio social e vida cotidiana. Assim são os vícios, defeitos, luxúria, ganância, ódio, ciúme, etc. Esses padrões precisam ser corrigidos, passar pelo Tikun (correção) e a meditação cabalística é uma das mais importantes técnicas de correção.


"Queime incensos e acenda velas, sente-se em um lugar tranquilo, esteja lavado recentemente pelo mikveh, o banho ritual. “Vá para um campo de ervas, porque a erva despertará seu coração”, nos diz Rabino Nachman de Breslev. Vá onde você estará só com Deus, com o sopro e a Fenda do Rochedo perto de você em todos os instantes. Para isto você não necessita de nenhum tsadik ou guru. Você atingirá o Deus interior, por sua própria nefesh, segundo suas palavras." Roshveder, Eliel. MEDITAÇÃO DEVEKUT: A VIA DA CABALA . Edição do Kindle.


Os textos cabalísticos, como o Talmud e o Sefer Yetzirah, indicam que a constância e o controle da prática meditativa podem levar o devote a estados tão elevados de consciência que torna possível aproximar-se do "Trono de Deus" e atingir a plenitude cósmica. Essa prática, em geral, é conduzida por meio de níveis de elevação frequencial que podemos associar a degraus de uma escada de ascensão. Cada um desses degraus corresponde a uma camada, ou câmara de construção do Merkabah, que vai emergindo passo a passo, ainda que, a princípio, de forma inconsciente. A maioria das práticas meditativas que aprendemos nos conduzem por um ou dois degraus até que possamos ascender aos seguintes, sozinhos e sob as próprias pernas.

A Meditação Cabalística, judaica, baseada na "Obra da Carruagem" - Maasseh Merkavah, propõe uma estrutura complexa, ordenada e fechada, que deve ser passada do mestre a discípulo, com a finalidade de preservar as tradições, aspirações e unidade do povo judeu. Embora o processo meditativo seja geral nas primeiras etapas, de certo ponto em diante, os passos são velados, assim como as chaves para a abertura dos "palácios" ou Hekhalot  não estão amplamente disponíveis. Mas a prática meditativa, é um portal para a ascensão e não há regra que impeça a revelação das chaves e dos caminhos àqueles que procedem o treinamento com confiança e sinceridade. O rabino Aryeh Kaplan nos fornece um passo a passo, sintetizado, da meditação Devekut que conduz a "Obra da Carruagem":

I - A recitação Mântrica : A recitação mântrica tem a finalidade principal de preparar a mente para o estado meditativo, direcioná-la para caminhos interiores livre de pensamentos estranhos.O principal Mantra da prática do Dvekut é a AMIDAH oração judaica que deve ser feita de pé, separada em dezoito partes e repetida em silêncio 3 vezes ao dia. A intenção original dessa prece é despertar o estado meditativo. Colocar a alma em sintonia com os valores e chaves secretas contidos em suas bênçãos e frases. Ela foi elaborada como uma forma comum de meditação para a nação judaica. Seria repetida desde a infância por toda a vida. Para além da recitação da Amidah, que é restrita e atrelada ao povo judeu e sua cultura, outros mantras podem ser recitados com a mesma finalidade. Existem algumas formas reduzidas de atingir o mesmo efeito que a Amidah. EX:

"Kodoish, Kodoish, Kodoish, Adonai Tsebaioth"

"Ribonó Shel Olám"

II - Contemplação: contemplar é dedicar atenção a alguma coisa, seja um objeto, palavra,  uma ideia, um conceito, uma inspiração etc. A atenção continua num determinado objeto implica na atuação dos cinco sentidos, especialmente a visão. Requer que os olhos se apropriem de todas as faces e nuances do objeto observado, enquanto a mente elabora as relações entre a forma, as cores, os usos e etc. O treino pode ser iniciado com qualquer coisa, desde um objeto concreto a um texto religioso ou equação matemática. O objetivo é aprender a preencher a mente com aquilo que está sendo contemplado e deixar de lado pensamentos intrusos que nada acrescentam. Quando se atinge o estado em que nada mais existe entre o observador e a coisa observada, forma-se uma unidade na qual é possível conhecer e entender toda o plano e a estrutura de formação  e atuar a partir dessa nova perspectiva. Importante compreender que contemplação não é adoração e sim uma forma relas como uma forma de meditação para a qual fornece uma fonte bíblica:de conexão. Segundo o rabino Kaplan, o Zohar (1: 1b, 2:231b) menciona a contemplação das est

"Elevai os olhos para o alto e vede: Quem criou esses astros? É Ele que faz o seu exército um número certo e fixo; a todos chama pelo nome..." (Is: 40:26)

III - Visualização - O olho da mente é a lâmpada na escuridão. É ele que recolhe as imagens que visualizamos na tela mental. Imagens que vêm dessa vida ou de outras vidas, desse plano ou de outros planos. Imagens que estão na alma e na alma do mundo (Akasha). A visualização é um processo natural, mas precisa ser controlado, pois trata-se de uma etapa que permite alcançar e experimentar a "visão panoscópica" em relação ao que está sendo revelado ou observado. Seria um tipo de visão 360º,  total, holística, capaz de perceber e vislumbrar, ao mesmo tempo, todas as "faces" ou dimensões do objeto. É também o Profeta Ezequiel quem nos fornece um exemplo concreto desse tipo de visão ao descrever certa espécie de anjos - chayót - como sendo seres de quatro faces em quatro lados. Ele as via simultâneamente - a face humana, o leão, o touro e a águia - como se contemplasse o todo.

Kaplan acredita que no Séfer Yetziráh existem exercícios meditativos que permitem experimentar a visão de múltiplas dimensões - pelo menos até cinco - ao mesmo tempo. A melhor prática para atingir esse tipo de visão é tentar retratar mentalmente as letras hebraicas, expressões ou nomes sagrados, como o Tetragrama, por exemplo.


IV - Sinestesia: A visão "panoscópica" pode levar a um outro fenômeno comum aos estados meditativos - a sinestesia - ou seja, uma "mistura de sentidos" provocada pela redução das barreiras entre os cinco sentidos e entre estes e os sentidos superiores. Isso quer dizer que a visão pode ser usada para distinguir sons ou a audição para perceber cores e etc. É possível distinguir padrões e frequências de uma música, uma paisagem pode ser degustada ou apreciada por meio de aromas etc. A sinestesia está muito associada ao fenômeno bíblico da Revelação, no qual se pode "ver o que normalmente é ouvido e ouvir o que normalmente é visto" conforme extraído de fontes talmúdicas.


V- O Vazio ou Nada: esse estágio convida a mente a criar uma concepção do Vazio, do puro NADA, em estado meditativo. O que seria o Nada? O  Não Ser?  Na meditação cabalística ensina-se que o NADA é o que está atrás da nossa cabeça e que nunca pode ser visto. Com a prática de contemplar o que se vê atrás da cabeça é possível transformar a "imagem" alcançada em fonte de inspiração para conexão com o plano divino. Na Bíblia essa técnica é usada como preparatória para o dom da profecia. Segundo Kaplan, "há uma série de referências a vozes e sons que parecem vir de trás".

De forma reduzida, esses seriam os primeiros cinco passos ou degraus na escada de ascensão, pela via da Cabala judaica. Os próximos  nos levariam à percepção da interdimensionalidade do nosso corpo e de seu veículo, o corpo de luz ou Merkabah, permitindo-nos transitar de forma consciente por essas dimensões. As dimensões ou Portais de Ascensão da alma estão todos contidos nas esferas da Árvore da Vida, que é também um grande Merkabah. Meditar nas esferas da Árvore da Vida pode ser um caminho longo ou curto. Com certeza a prática dos cinco passos, conjugada à contemplação panoscópica da Árvore da Vida, pode nos ajudar a ascender às Hekhalot e alcançar as moradas do Reino.


Referências: BIBLIA SAGRADA: Gênesis e Coríntios

KAPLAN, Aryed , “Meditation and Kabbalah, SEPHER, 1982

KAPLAN, Aryed, “Meditação Judaica, um guia prático, Ágora, SP, 2010

KAPLAN, Aryed: Sêfer Ietsirá – O livro da Criação, Teoria e Prática , SEPHER, 2002

MELCHISEDEK, Drunvalo – O Antigo Segredo da Flor da vida – Volume 1 e 2 – Pensamento

PROPHET, M & PROPHET, E – Senhores dos Sete Raios – Summit Lighthouse, 1986

ROSHVEDER, Eliel – Hekhalot, subida aos palácios celestiais, Ed. Kindle

Filme: The Fountain


Fonte: pequenashamballa.blogspot.com

Autor: Renata B R Barreto - Adohra Akya,

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