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Iêmen - O Reino de Sabá, e sua lendária rainha, documentados na história e no imaginário cultural de três continentes.

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    Mauricio Brasilli
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  • 19 min de leitura

Relíquias da Arábia feliz - Reino de Sabá


Antigo Reino de Saba, Marib (Iêmen) Patrimônio Mundial da UNESCO
Antigo Reino de Saba, Marib (Iêmen) Patrimônio Mundial da UNESCO

No extremo sudoeste da Península Arábica, onde montanhas escarpadas encontram desertos implacáveis, floresceu um dos reinos mais enigmáticos e prósperos da antiguidade: Sabá. Por mais de mil anos, esse reino controlou as rotas comerciais que levavam incenso, mirra e especiarias dos portos do sul da Arábia até os mercados do Mediterrâneo, acumulando riquezas que inspiraram lendas duradouras. Suas ruínas monumentais no atual Iêmen e seus ecos profundos na tradição etíope continuam fascinando arqueólogos, historiadores e peregrinos, enquanto a figura enigmática da Rainha de Sabá permanece como ponte entre história documentada e imaginário cultural de três continentes.


Seções:

  • Geografia da Arabia Felix

  • História do reino sua organização política e religiosa

  • Análise das três tradições sobre a Rainha (bíblica, islâmica e etíope)

  • Descrição da Grande Represa de Marib e sua engenharia

  • Detalhes arqueológicos dos Templos de Awwam e Barran

  • Rotas comerciais terrestres e marítimas do incenso

  • História de Aksum suas estelas e tradição da Arca

  • Transição religiosa do paganismo ao judaísmo, cristianismo e islã

  • Contexto atual sobre conflitos e preservação

  • Reflexão sobre o legado cultural e significado contemporâneo




A Geografia da Fortuna: Arabia Felix


Arábia Feliz (em latim: Arabia Felix;) correspondente aos atuais Estados do Iêmem e Omã.
Arábia Feliz (em latim: Arabia Felix;) correspondente aos atuais Estados do Iêmem e Omã.


Os antigos tinham boas razões para chamar essa região de Arabia Felix – a Arábia Feliz ou Afortunada. Enquanto vastas extensões da Península Arábica eram terras áridas e inóspitas, o sudoeste montanhoso beneficiava-se das monções do Oceano Índico, que traziam chuvas sazonais suficientes para sustentar agricultura e, crucialmente, as árvores de incenso e mirra.


O geógrafo grego Estrabão, escrevendo no século I d.C., descreveu com admiração estas terras produtoras de aromáticos, observando que eram consideradas as mais afortunadas de todas. Plínio, o Velho, em sua História Natural, foi ainda mais específico sobre a riqueza sabeia, declarando que não havia povo mais rico que aquele cujas florestas transbordavam de árvores de incenso e mirra.


Esta região montanhosa, com picos que alcançam mais de 3.000 metros de altitude, criava um microclima único. Vales férteis podiam ser irrigados através de sistemas sofisticados, transformando áreas desérticas em jardins produtivos. Foi neste cenário que surgiram os reinos do sul da Arábia: Sabá, Ma'in, Qataban e Hadramaut, com Sabá emergindo como o mais poderoso e duradouro de todos.

ruínas da antiga Ma'rib
ruínas da antiga Ma'rib

O Reino de Sabá: Uma Civilização Esquecida

O Reino de Sabá existiu aproximadamente entre os séculos X a.C. e III d.C., embora suas raízes possam ser ainda mais antigas. Através de inscrições em sabeu antigo – um alfabeto semítico meridional distinto – conhecemos os nomes de dezenas de governantes, mukarribs (reis-sacerdotes) e maliks (reis), que construíram um estado sofisticado baseado no controle das rotas do incenso.

As inscrições sabéias revelam uma sociedade complexa, com um panteão de deuses encabeçado por Almaqah, o deus lunar, ao lado de divindades solares e astrais. A religião permeava todos os aspectos da vida, e os templos funcionavam não apenas como centros religiosos, mas como instituições econômicas que controlavam vastas propriedades agrícolas e rebanhos.

O sistema político sabeu era igualmente sofisticado. Além do governante central, havia uma aristocracia tribal poderosa, sacerdotes influentes e uma classe mercantil próspera. Documentos legais preservados em bronze e pedra revelam regulamentações sobre comércio, propriedade, irrigação e oferendas religiosas, demonstrando um estado de direito bem desenvolvido.



A língua sabeia, preservada em milhares de inscrições, pertence ao ramo semítico meridional e é ancestral das línguas etíopes modernas como o amárico e o tigrínia, evidenciando conexões culturais profundas através do Mar Vermelho.


A Rainha que Conquistou Imaginações

A narrativa mais famosa sobre Sabá é, sem dúvida, a visita de sua rainha ao Rei Salomão de Israel, registrada em múltiplas tradições religiosas e culturais, cada uma adicionando camadas de significado à história.


A Narrativa Bíblica

O relato em 1 Reis 10:1-13 é relativamente conciso mas evocativo. A rainha, ouvindo falar da sabedoria de Salomão e de sua relação com o Senhor, veio testá-lo com enigmas difíceis. Chegou a Jerusalém com uma caravana impressionante: camelos carregados de especiarias em grande quantidade, ouro abundante e pedras preciosas. O texto enfatiza que Salomão respondeu todas as suas perguntas, não havendo nada tão obscuro que o rei não pudesse explicar.


A visita da Rainha de Sabá a Salomão,  por  Tintoretto  ,  por volta de  1555.
A visita da Rainha de Sabá a Salomão,  por  Tintoretto  ,  por volta de  1555.

Impressionada com sua sabedoria, a magnificência de seu palácio, a comida de sua mesa e a organização de seu reino, a rainha declarou que não havia acreditado nos relatos até vê-los com seus próprios olhos, admitindo que a realidade superava a fama. Ela presenteou Salomão com cento e vinte talentos de ouro, além de especiarias e pedras preciosas em quantidades sem precedentes. O texto adiciona que nunca mais chegaram tantas especiarias quanto aquelas que a rainha de Sabá deu ao rei.

O livro paralelo de 2 Crônicas 9 repete a narrativa com pequenas variações, enquanto o Novo Testamento, em Mateus 12:42 e Lucas 11:31, Jesus menciona a "rainha do Sul" que veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão, usando-a como exemplo de busca pela verdade.


A Tradição Islâmica

O Alcorão dedica uma narrativa mais elaborada à rainha, chamando-a de Bilqis, na Surata 27. Nesta versão, o profeta-rei Salomão (Sulayman) envia uma carta via sua mensageira, a poupa, convocando-a a submeter-se ao Deus único. Bilqis consulta seus conselheiros, que se declaram prontos para a guerra, mas ela, demonstrando sabedoria política, opta por enviar presentes primeiro.

Salomão recusa os presentes, declarando que o que Deus lhe deu é melhor. A rainha então decide visitá-lo pessoalmente. Em uma demonstração de poder sobrenatural, Salomão ordena que tragam o trono dela antes de sua chegada, o que é realizado instantaneamente por um dos seus servos dotado de conhecimento do Livro. Quando Bilqis chega e reconhece seu trono transformado, ela percebe a grandeza de Salomão e se converte, submetendo-se junto com ele a Deus.

Esta narrativa corânica enfatiza temas de sabedoria política, poder divino e a submissão de reinos poderosos à verdade única. Bilqis é retratada como governante astuta e sábia, capaz de discernimento superior ao de seus conselheiros guerreiros.


O Kebra Nagast Etíope

A versão mais elaborada e romanesca vem da Etiópia, no Kebra Nagast (Glória dos Reis), compilado no século XIV mas baseado em tradições muito mais antigas. Nesta narrativa, a rainha se chama Makeda e governa a Etiópia a partir de Aksum.

Segundo o Kebra Nagast, um mercador etíope chamado Tamrin voltou de Jerusalém contando maravilhas sobre a sabedoria de Salomão. Intrigada, Makeda organizou uma expedição comercial e diplomática, levando presentes preciosos. Durante meses em Jerusalém, ela aprendeu com Salomão sobre o Deus de Israel e a Lei.

Na noite anterior à sua partida, Salomão preparou um banquete com comida muito temperada e, através de um estratagema, assegurou que Makeda concordasse em não tomar nada que pertencesse a ele, enquanto ele não tomaria nada que pertencesse a ela. Durante a noite, com sede devido à comida salgada, Makeda bebeu água, quebrando assim seu juramento. Salomão então argumentou que ela havia tomado algo dele (a água) e assim estava livre para reivindicar seu direito.

Desta união nasceu Menelik (cujo nome significa "filho do sábio"), que cresceu na Etiópia. Aos vinte anos, Menelik viajou para conhecer seu pai em Jerusalém. Salomão quis que ele permanecesse e o sucedesse, mas Menelik desejava retornar à Etiópia. Salomão então enviou com ele os primogênitos das famílias nobres de Israel.


Segundo a tradição, estes jovens, incluindo Azariah filho do sumo sacerdote Zadok, conspiraram para levar a Arca da Aliança para a Etiópia, substituindo-a por uma réplica. Quando descobriram o ocorrido, já estavam muito distantes, e Salomão interpretou isso como vontade divina. Assim, a Arca teria chegado a Aksum, onde supostamente permanece até hoje na Igreja de Santa Maria de Sião.

Esta narrativa legitimou a dinastia salomônica etíope, que governou o país até a deposição de Haile Selassie em 1974, alegando descendência direta de Salomão e da Rainha de Sabá através de Menelik I.


Marib: Coração do Reino Sabeu


Ruínas do antigo Ma'rib no Iêmen
Ruínas do antigo Ma'rib no Iêmen

Se quisermos encontrar a capital histórica de Sabá, devemos viajar ao Iêmen, especificamente à região de Marib, situada no deserto a aproximadamente 120 quilômetros a leste da atual capital, Sanaa. Aqui, ruínas monumentais testemunham a grandeza de uma civilização que dominou o sul da Arábia por séculos.




A Grande Represa: Maravilha da Engenharia Antiga

A realização mais impressionante dos sabeus foi sem dúvida a Grande Represa de Marib, construída por volta do século VIII a.C. e continuamente expandida e melhorada ao longo dos séculos. Com aproximadamente 700 metros de comprimento e 20 metros de altura em sua fase final, a represa represava águas sazonais do Wadi Adhanah, criando um reservatório que alimentava um elaborado sistema de irrigação.


a Grande Represa de Marib, construída por volta do século VIII a.C
a Grande Represa de Marib, construída por volta do século VIII a.C

Através de dois canais principais, um ao norte e outro ao sul, a água era distribuída para irrigar cerca de 9.600 hectares de terras agrícolas, transformando o deserto em jardins produtivos. Este sistema permitia duas colheitas anuais e sustentava uma população estimada em 30.000 a 50.000 pessoas apenas na área de Marib.

Inscrições sabéias documentam repetidas obras de manutenção e renovação da represa ao longo dos séculos. Uma inscrição do mukarrib Yatha'amar Watar, do século VII a.C., celebra extensas reparações. Outra, do século VI d.C., menciona o rei Abraha realizando trabalhos de restauração.

O Alcorão faz referência ao que pode ser a ruptura final da represa, ocorrida por volta de 570 d.C., na Surata 34:16, mencionando o "dilúvio de Arim" que destruiu os jardins do povo de Sabá como punição divina por sua ingratidão, transformando suas terras férteis em deserto com árvores amargas.

Esta catástrofe hidrológica contribuiu significativamente para o declínio final do poder sabeu e causou grandes migrações de tribos árabes para o norte, um evento que teve repercussões em toda a Península Arábica nas vésperas do surgimento do Islã.


O Templo de Awwam: Santuário do Deus Lunar

A cerca de quatro quilômetros ao sul das ruínas da antiga cidade de Marib ergue-se o Templo de Awwam, também conhecido como Mahram Bilqis (o santuário de Bilqis), embora sua associação com a rainha seja lendária e não histórica.


A  grande muralha de Awwam  em Marib
A  grande muralha de Awwam  em Marib

Este vasto complexo religioso, dedicado ao deus lunar Almaqah, patrono do Reino de Sabá, é um dos sítios arqueológicos mais importantes da Arábia antiga. O templo propriamente dito consiste em uma área oval cercada por uma muralha, com oito pilares monumentais de calcário ainda de pé, alguns atingindo 9 metros de altura. Estes pilares foram esculpidos como símbolos de poder e devoção, e originalmente havia dezenas deles.

Escavações arqueológicas, iniciadas pela expedição americana Wendell Phillips em 1951-1952 e retomadas por missões alemãs nas décadas recentes, revelaram camadas de ocupação que remontam ao século X a.C. ou antes. O sítio rendeu uma das maiores coleções de inscrições sabéias, com milhares de textos gravados em pedra, bronze e outros materiais.

Estas inscrições são predominantemente votivas, oferendas feitas por reis, nobres e cidadãos comuns agradecendo a Almaqah por vitórias militares, curas, prosperidade comercial ou nascimentos. Muitas começam com fórmulas como "Consagrou e ofereceu a Almaqah, senhor do templo de Awwam", seguidas do nome do dedicante, sua linhagem e o motivo da oferenda.

Arqueólogos descobriram também milhares de objetos votivos depositados no templo ao longo dos séculos: estatuetas de bronze representando adoradores com as mãos levantadas em oração, placas de metal precioso com inscrições dedicatórias, joias elaboradas, armas cerimoniais e modelos miniaturizados de camelos carregados, simbolizando o comércio carovaneiro que era a fonte da riqueza sabéia.

O complexo incluía áreas para sacrifícios de animais, câmaras de tesouro onde eram guardadas as oferendas mais valiosas, e provavelmente instalações para sacerdotes. Inscrições mencionam uma hierarquia sacerdotal complexa e festivais regulares onde peregrinos de todo o reino convergiam para Awwam.


O Templo de Barran e Outros Monumentos

Próximo a Awwam está o Templo de Barran, dedicado ao deus Almaqah sob um epíteto diferente. Também conhecido como trono de Bilqis, este templo oval apresenta arquitetura similar mas em escala ligeiramente menor. Suas colunas peristilares e propileus monumentais demonstram a mesma sofisticação arquitetônica.

Na própria cidade antiga de Marib, colinas de escombros marcam onde ficavam palácios reais, residências aristocráticas, mercados e bairros residenciais. Embora muito ainda permaneça não escavado, sondagens arqueológicas revelaram muros massivos, sistemas de drenagem urbana e evidências de uma cidade densamente povoada.







Outras inscrições sabéias foram encontradas em sítios por todo o Iêmen, desde Sirwah, com seu templo e inscrições monumentais, até Shabwa, capital do reino vizinho de Hadramaut, que eventualmente caiu sob controle sabeu. Estas descobertas epigráficas permitiram aos estudiosos reconstruir cronologias dinásticas, entender práticas religiosas, mapear rotas comerciais e apreciar a extensão da influência cultural sabeia.


As Rotas do Incenso: Estradas de Ouro Aromático

A verdadeira riqueza de Sabá não vinha apenas de suas terras férteis irrigadas, mas do controle das rotas comerciais que transportavam os produtos aromáticos mais valiosos do mundo antigo: incenso e mirra.


Os Aromáticos Sagrados

O incenso (Boswellia sacra) e a mirra (Commiphora myrrha) são resinas obtidas de árvores que crescem principalmente no sul da Arábia (atual Iêmen e Omã) e no Chifre da África (Somália). Quando a casca destas árvores é cortada, exsudam uma seiva resinosa que endurece em lágrimas aromáticas translúcidas.

No mundo antigo, estes aromáticos eram essenciais para rituais religiosos em todo o Mediterrâneo e Oriente Próximo. Templos em Jerusalém, Atenas, Roma e cidades do Egito queimavam incenso diariamente em oferendas aos deuses. A mirra era usada em unções sagradas, embalsamamento e preparações medicinais. O valor destes produtos era comparável ao ouro, literalmente pesando seu peso em metais preciosos.

O historiador Plínio menciona que Roma importava anualmente cerca de 2.800 toneladas de incenso e 550 toneladas de mirra, um comércio que drenou quantidades enormes de ouro e prata do império romano para o sul da Arábia. Ele expressou preocupação sobre este desequilíbrio comercial, lamentando a riqueza que fluía para terras distantes em troca de fumaça perfumada.


A Rota Terrestre

Caravanas de camelos, muitas vezes compostas por centenas ou milhares de animais, partiam dos centros produtores no sul da Arábia e seguiam rotas cuidadosamente planejadas através do deserto, uma jornada de meses até os mercados do Mediterrâneo.


O horizonte da  Cidade Velha de Sanaa
O horizonte da  Cidade Velha de Sanaa

A rota principal atravessava o território sabeu, depois continuava norte através dos territórios de Ma'in e outras cidades-estado árabes, passando por oásis vitais como Najran, Yathrib (futura Medina) e Dedan. De lá, seguia para Petra, capital dos nabateus, que se tornaram intermediários essenciais, e finalmente para Gaza ou outros portos mediterrâneos.

Cada reino ou tribo por cujo território a caravana passava cobrava taxas e impostos, tornando o produto final extraordinariamente caro, mas ainda lucrativo para todos os envolvidos. Os sabeus, controlando a origem do incenso e os primeiros estágios da rota, ficavam com a maior parte dos lucros.

Inscrições sabéias mencionam regulamentações sobre caravanas, proteção de rotas comerciais e expedições militares para assegurar o controle de territórios estratégicos. Algumas inscrições registram dedicações feitas por "senhores de caravanas" agradecendo aos deuses por viagens bem-sucedidas.


A Rota Marítima

Paralelamente à rota terrestre, desenvolvia-se um comércio marítimo igualmente importante através do Mar Vermelho e, mais tarde, diretamente através do Oceano Índico aproveitando os ventos de monção.

Portos sabeus como Qana e Muza (mencionados no Périplo do Mar Eritreu, um guia comercial grego do século I d.C.) exportavam não apenas aromáticos locais, mas também produtos que chegavam de mais longe: especiarias indianas, pérolas do Golfo Pérsico, e eventualmente até seda chinesa.

O Périplo descreve Muza como um empório movimentado onde mercadores trocavam tecidos, vinhos e metais trabalhados mediterrâneos por incenso, mirra, aloés e outros produtos exóticos. O texto menciona que os governantes locais controlavam rigidamente o comércio e mantinham frotas de navios.

Com a descoberta pelos navegadores greco-romanos, por volta do século I d.C., de como utilizar os ventos de monção para navegação direta entre o Mar Vermelho e a Índia, o comércio marítimo intensificou-se, eventualmente complementando e parcialmente superando a antiga rota das caravanas terrestres.


Aksum: O Legado Etíope

Cruzando o Mar Vermelho, no planalto etíope, desenvolveu-se o Reino de Aksum (também grafado Axum), que mantinha conexões profundas e multifacetadas com o sul da Arábia e especificamente com tradições relacionadas a Sabá.



O Reino Aksumita

O Reino Aksumita floresceu aproximadamente entre os séculos I e X d.C., tornando-se uma das principais potências da África antiga. Estrategicamente posicionado para controlar rotas comerciais entre o interior africano e o Mar Vermelho, e dali para o Oceano Índico e Mediterrâneo, Aksum acumulou riqueza e poder consideráveis.

As relações entre Aksum e o sul da Arábia eram complexas. Linguisticamente, as línguas ge'ez (língua clássica etíope) e sabeia compartilham raízes semíticas meridionais. Arqueologicamente, artefatos e estilos arquitetônicos mostram influências culturais recíprocas através do Mar Vermelho. Politicamente, fontes documentam períodos de intervenção aksumita no Iêmen, especialmente no século VI d.C., quando o rei aksumita Kaleb invadiu e conquistou temporariamente partes do sul da Arábia.

Inscrições trilíngues (ge'ez, sabeu e grego) de reis aksumitas como Ezana (século IV d.C.) demonstram esta conexão cultural e a extensão das ambições imperiais aksumitas, que incluíam territórios em ambos os lados do Mar Vermelho.


As Estelas de Aksum

As estelas gigantes de Aksum são talvez os monumentos mais impressionantes do reino. Estas torres de granito monolíticas, esculpidas para se parecerem com edifícios de múltiplos andares completos com portas e janelas falsas, marcavam túmulos reais e aristocráticos.

A maior estela ainda de pé mede 24 metros de altura e pesa cerca de 160 toneladas. Outra, que teria sido a maior já erguida com 33 metros, caiu na antiguidade e jaz quebrada no local. Uma terceira, de 24 metros, foi saqueada pelas forças italianas durante a ocupação da Etiópia (1936-1941) e erigida em Roma, sendo finalmente devolvida e re-erguida em Aksum em 2008.

A técnica e ambição necessárias para talhar, transportar e erguer estas massas de pedra sólida demonstram sofisticação tecnológica e organização social impressionantes. O estilo arquitetônico das estelas, com suas representações de edifícios de múltiplos andares, mostra influências do sul da Arábia, onde construções em pedra de vários andares eram características.


A Tradição da Arca

A tradição mais extraordinária preservada em Aksum é a crença de que a cidade abriga a verdadeira Arca da Aliança, o objeto sagrado que, segundo a Bíblia, continha as tábuas dos Dez Mandamentos dadas a Moisés no Monte Sinai.


Igreja de Santa Maria de Sião em Aksum
Igreja de Santa Maria de Sião em Aksum

A Igreja de Santa Maria de Sião em Aksum alega guardar a Arca em uma capela especial, acessível apenas a um guardião designado que dedica sua vida inteira a protegê-la. Nenhum estudioso externo ou arqueólogo jamais teve permissão para examiná-la, e a tradição proíbe até mesmo fotografá-la.

Anualmente, durante a festa de Timkat (Epifania etíope), réplicas da Arca, chamadas tabots, são carregadas em procissão de todas as igrejas etíopes, numa celebração que atrai multidões de peregrinos. Esta tradição religiosa viva conecta a Etiópia moderna diretamente à narrativa do Kebra Nagast e à figura da Rainha de Sabá.

Historiadores e arqueólogos permanecem céticos quanto à presença real da Arca bíblica em Aksum, apontando para a falta de evidências verificáveis e as impossibilidades logísticas da narrativa tradicional. Entretanto, a tradição permanece central à identidade religiosa e nacional etíope, e Aksum continua sendo um dos centros de peregrinação mais importantes da Igreja Ortodoxa Etíope.


Realidade Histórica: Mulheres no Poder na Arábia Antiga

Enquanto a historicidade específica da visita da Rainha de Sabá a Jerusalém permanece não comprovada arqueologicamente, sabemos que mulheres de fato ocuparam posições de poder na Arábia antiga e regiões adjacentes.

Inscrições assírias dos séculos VIII e VII a.C. mencionam várias rainhas árabes. O rei assírio Tiglath-Pileser III (745-727 a.C.) registrou receber tributo de Zabibe, rainha dos árabes. Seu sucessor Sargão II mencionou Samsi, outra rainha árabe que liderou forças contra os assírios e foi derrotada. Textos de Senaqueribe mencionam Te'elhunu, rainha dos árabes. Assurbanipal registrou conflitos com Tabua e Yatie, rainhas árabes sucessivas.

Estas não eram consortes, mas governantes que lideravam tribos e reinos, conduziam diplomacia, coletavam tributos e comandavam forças militares. Sua existência em registros assírios contemporâneos confirma que mulheres podiam e de fato exerciam poder soberano na Arábia do primeiro milênio a.C.

No próprio Reino de Sabá, embora a maioria dos governantes documentados sejam homens, há alguma evidência de mulheres em posições de autoridade. Algumas inscrições mencionam mulheres da família real fazendo dedicações importantes, e há debate acadêmico sobre se certos títulos poderiam indicar governantes femininas.

Portanto, a ideia de uma rainha poderosa governando um reino árabe rico no século X a.C. é perfeitamente plausível historicamente, mesmo que os detalhes específicos da narrativa bíblica não possam ser verificados arqueologicamente.


A Transição Religiosa: De Almaqah a Cristo e Alá

A história religiosa do sul da Arábia e da Etiópia passou por transformações dramáticas que moldaram as culturas modernas destas regiões.


Paganismo Sabeu

Durante a maior parte de sua história, o Reino de Sabá praticava uma religião politeísta centrada em divindades astrais. Almaqah, o deus lunar, era o patrono do reino e da dinastia real. Ao seu lado, eram venerados Attar (associado com o planeta Vênus), Dhāt-Ḥimyam e Dhāt-Baʿdān (deusas solares), e numerosas divindades menores.

Templos funcionavam como centros econômicos e sociais, não apenas religiosos. Possuíam vastas propriedades agrícolas, rebanhos e recebiam oferendas substanciais. Sacerdotes formavam uma classe social poderosa, frequentemente servindo também como escribas, administradores e conselheiros reais.

Rituais incluíam sacrifícios de animais, procissões, festivais sazonais ligados ao calendário agrícola, e peregrinações a santuários importantes. Práticas divinatórias e oráculos desempenhavam papel importante em decisões políticas e militares.


Judaísmo na Arábia

Durante os últimos séculos antes do Islã, comunidades judaicas estabeleceram-se em várias partes da Arábia, incluindo o sul. Por volta do século IV d.C., conversões ao judaísmo ocorreram entre as elites árabes, incluindo em Himyar, sucessor político de Sabá.

O rei himyarita Dhu Nuwas, no início do século VI d.C., adotou o judaísmo e promoveu-o vigorosamente, entrando em conflito com cristãos na região. Uma inscrição de 518 d.C. registra sua perseguição aos cristãos de Najran, evento que teve repercussões internacionais, levando à intervenção aksumita cristã.


Cristianismo Aksumita

O Reino de Aksum adotou oficialmente o cristianismo no século IV d.C. sob o rei Ezana, tornando-se um dos primeiros estados cristãos do mundo, contemporâneo da conversão do Império Romano.

Segundo a tradição, dois jovens sírios cristãos, Frumêncio e Edésio, foram levados à corte aksumita após um naufrágio. Frumêncio tornou-se conselheiro do rei e trabalhou para converter a realeza. Eventualmente foi consagrado bispo por Atanásio de Alexandria, estabelecendo laços entre a Igreja Etíope e a Igreja Copta do Egito que perduram até hoje.

A Igreja Ortodoxa Etíope desenvolveu características únicas, incorporando elementos de tradições judaicas (observância do sábado junto com o domingo, leis dietéticas, circuncisão) que podem refletir influências pré-cristãs ou contatos com comunidades judaicas. A tradição da Arca da Aliança e a narrativa do Kebra Nagast dão à identidade etíope uma dimensão judaico-cristã particular.


A Chegada do Islã

O Islã chegou ao sul da Arábia já durante a vida do Profeta Muhammad. Tribos iemenitas enviaram delegações a Medina e converteram-se pacificamente. Após a morte de Muhammad, o califa Abu Bakr enviou expedições militares que consolidaram o controle islâmico sobre toda a Península Arábica.

A conversão foi relativamente rápida, e dentro de gerações, a população era predominantemente muçulmana. Templos pagãos foram abandonados, suas inscrições deixadas para serem lentamente cobertas pelas areias do deserto, preservando inadvertidamente um registro precioso para arqueólogos futuros.

Paradoxalmente, enquanto a memória histórica do Reino de Sabá desvaneceu-se entre a população local, a figura da Rainha de Sabá (Bilqis) tornou-se parte integral da tradição islâmica através do Alcorão, ganhando nova vida em uma religião mundial.


O Patrimônio em Perigo

Tragicamente, muitos dos tesouros arqueológicos que sobreviveram séculos de abandono e esquecimento enfrentam agora ameaças sem precedentes.


A Guerra no Iêmen

Desde 2015, o Iêmen mergulhou em uma guerra civil devastadora que se tornou uma crise humanitária massiva. O conflito entre forças governamentais apoiadas por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita e rebeldes Houthi apoiados pelo Irã tem custado centenas de milhares de vidas e causado sofrimento indescritível.

Os sítios arqueológicos não foram poupados. Marib, localizada em uma zona de intensos combates, sofreu danos. A represa antiga foi danificada por bombardeios. O Templo de Awwam teve áreas afetadas por projéteis. Outros sítios por todo o país foram saqueados, danificados ou destruídos.

O Museu Nacional do Iêmen em Sanaa foi atingido, com coleções insubstituíveis danificadas. A Cidade Velha de Sanaa, Patrimônio Mundial da UNESCO, sofreu destruição parcial. Sítios em Saada, Taiz e outras cidades históricas foram afetados por combates.

A comunidade arqueológica internacional tem trabalhado para documentar danos através de imagens de satélite, na esperança de que futuras restaurações sejam possíveis quando a paz retornar. Organizações como UNESCO, ICOMOS e diversas universidades colaboram em projetos de documentação digital, criando modelos 3D e arquivos fotográficos detalhados dos sítios antes que mais danos ocorram.


Desafios na Etiópia

A Etiópia também enfrenta desafios na preservação de seu patrimônio. O conflito em Tigray (2020-2022) afetou a região onde Aksum está localizada. Relatos indicaram saques a tesouros da igreja, destruição de estelas antigas e danos a estruturas históricas durante combates.

Além disso, o desenvolvimento urbano em Aksum e outras cidades históricas pressiona sítios arqueológicos. A expansão de construções modernas muitas vezes ocorre sobre ruínas antigas ainda não escavadas, destruindo contextos arqueológicos para sempre.


Esforços de Preservação

Apesar dos desafios, há também histórias de resiliência e dedicação. Arqueólogos iemenitas e etíopes, frequentemente trabalhando em condições perigosas e com recursos mínimos, continuam esforços para proteger e documentar seu patrimônio.

Projetos internacionais de colaboração tentam manter trabalhos de conservação quando possível. Digitalizações 3D de alta resolução de artefatos e estruturas criam arquivos digitais que preservam o conhecimento mesmo se os originais forem perdidos.

Museus ao redor do mundo que abrigam coleções sabéias e aksumitas trabalham para torná-las acessíveis através de exposições e publicações online, compartilhando este patrimônio com audiências globais.


O Legado Duradouro: Pontes entre Culturas

A história de Sabá e de sua rainha lendária transcende fronteiras geográficas, religiosas e temporais, oferecendo lições relevantes para nosso mundo contemporâneo.


Unidade na Diversidade

A narrativa da Rainha de Sabá é compartilhada por judeus, cristãos e muçulmanos, cada tradição adicionando suas próprias interpretações e significados. Raramente um relato histórico-lendário consegue tal universalidade, servindo como ponto de encontro para diferentes culturas e religiões.

Em sinagogas, a história é lida como exemplo de sabedoria que transcende fronteiras, de um reino gentio reconhecendo a grandeza de Israel. Em igrejas, Jesus invoca a rainha como exemplo de quem busca a verdade, vindo de longe para encontrá-la. Em mesquitas, Bilqis representa a governante sábia que reconhece a verdade quando a encontra e submete-se humildemente à vontade divina.

Na Etiópia, a narrativa torna-se fundacional para a identidade nacional, conectando o país tanto às tradições abraâmicas quanto à sua herança africana única. Esta multiplicidade de interpretações, longe de diminuir a história, enriquece-a, demonstrando como narrativas podem ganhar vida própria e significados diversos através das culturas.


Mulheres no Poder

A figura da Rainha de Sabá também oferece uma representação rara e valorizada de liderança feminina em textos antigos. Em uma época em que as mulheres frequentemente tinham papéis limitados em narrativas históricas e religiosas, ela surge como governante poderosa, sábia, diplomata e tomadora de decisões autônoma.

Nas diferentes versões da história, ela nunca é diminuída ou tratada como inferior. Salomão a trata como igual, respondendo suas questões com respeito. No relato corânico, ela demonstra sabedoria política superior aos seus conselheiros homens, optando pela diplomacia sobre a guerra. Na tradição etíope, ela governa efetivamente e toma decisões que moldam o futuro de uma nação.

Para mulheres ao longo dos séculos, especialmente na Etiópia onde a tradição de rainhas e imperatrizes foi mais forte, a Rainha de Sabá serviu como modelo de liderança feminina legítima e respeitada.


Comércio e Intercâmbio Cultural

A história sabéia lembra-nos também da antiguidade das redes comerciais globais. Muito antes da "globalização" moderna, caravanas atravessavam desertos, navios cruzavam oceanos, conectando África, Ásia e Europa em redes de comércio e intercâmbio cultural.

Os aromáticos que viajavam de Sabá para templos romanos, o conhecimento que fluía entre escribas sabeus e escribas em Jerusalém, os estilos artísticos que cruzavam o Mar Vermelho entre Iêmen e Etiópia, todos testemunham uma interconectividade antiga e sofisticada.

Esta perspectiva histórica de longo prazo pode nos ajudar a entender que o intercâmbio entre culturas, longe de ser ameaça à identidade, sempre foi motor de inovação, prosperidade e enriquecimento mútuo.


O Valor do Patrimônio

Finalmente, a vulnerabilidade atual dos sítios sabeus e aksumitas sublinha a importância de proteger o patrimônio cultural da humanidade. Estas ruínas não pertencem apenas ao Iêmen ou à Etiópia, mas a todos nós, como testemunhos de capítulos fascinantes da história humana.

Quando templos milenares são destruídos por bombardeios, quando inscrições irreplaceable são pulverizadas, quando artefatos insubstituíveis são saqueados e vendidos em mercados negros, todos perdemos. Perdemos conexões tangíveis com nosso passado, evidências que poderiam responder perguntas ainda não formuladas, inspiração que objetos antigos oferecem.

A preservação deste patrimônio não é luxo acadêmico, mas necessidade humana. Compreender de onde viemos, as complexidades de civilizações passadas, as realizações de nossos ancestrais, nos ajuda a entender melhor quem somos e quem podemos nos tornar.


Conclusão: Entre Pedras e Sonhos

Ao final, a história de Sabá e de sua rainha lendária vive em dois planos que se entrelaçam: o das pedras silenciosas no deserto iemenita e nas colinas etíopes, e o dos sonhos e narrativas que continuam animando imaginações através de milênios.

As pedras nos contam de uma civilização real que dominou engenharia hidráulica, desenvolveu escrita sofisticada, construiu templos monumentais, controlou redes comerciais vastas e acumulou riquezas imensuráveis. Elas falam de reis e sacerdotes, mercadores e artesãos, campanhas militares e oferendas religiosas, da vida cotidiana de um povo que transformou uma região árida em centro de poder e cultura.

Os sonhos nos contam de uma rainha cuja sabedoria e grandeza eram tão notáveis que ela viajou para os confins do mundo conhecido para encontrar alguém ainda mais sábio, levando consigo presentes dignos de lendas. Eles falam de encontros que transcendem culturas, de buscas por conhecimento que ignoram fronteiras, de reconhecimento mútuo entre grandezas.

Ambas as histórias são verdadeiras, cada uma à sua maneira. As pedras nos dão fatos, datas, nomes, contextos. Os sonhos nos dão significados, valores, inspirações, identidades. Juntos, eles compõem o que realmente significa estudar e preservar a história humana: não apenas acumular dados sobre o passado, mas conectar-nos através do tempo com aqueles que vieram antes, aprendendo suas lições, admirando suas realizações, evitando seus erros.

Enquanto as estelas de Aksum continuarem apontando para o céu, enquanto os pilares de Awwam permanecerem de pé no deserto, enquanto pessoas em três continentes continuarem contando histórias sobre a rainha que cruzou desertos em busca de sabedoria, o Reino de Sabá não estará morto. Viverá na memória cultural da humanidade, uma civilização da Arábia Feliz cujo legado é tão duradouro quanto os aromáticos que um dia comercializou: invisível mas pervasivo, valioso além de medida, conectando pessoas e lugares através de vastas distâncias de espaço e tempo.

Que as ruínas de Marib e os monumentos de Aksum sejam preservados para gerações futuras, para que possam também maravilhar-se diante das realizações de nossos ancestrais e continuar desvendando os mistérios da rainha que reinou sobre a terra do incenso e da mirra, onde desertos floresciam e caravanas carregavam não apenas ouro e especiarias, mas também sonhos de grandeza que atravessariam milênios.

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