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Geometrias do Cosmos é premiado no 53º Salão da Primavera do MAM Resende

  • Foto do escritor: Mauricio Brasilli
    Mauricio Brasilli
  • há 22 horas
  • 6 min de leitura
As três obras de Maurício Brasilli recebem o Prêmio de Aquisição Fundação Casa da Cultura Macedo Miranda e levam a Geometria Sagrada ao acervo de um dos mais antigos museus de arte moderna do Brasil
53º Geometrias do Cosmos - Salão da Primavera do MAM Resende
53º Geometrias do Cosmos - Salão da Primavera do MAM Resende

Há momentos em que uma trajetória individual encontra uma instituição cuja própria história amplia o significado da conquista. É com grande alegria que anuncio que minhas três obras — A Máquina de Chilrear para Uso Cósmico, A Geometria do Plenum e O Cubo no Espaço — foram selecionadas para o 53º Salão da Primavera do Museu de Arte Moderna de Resende e, em seu resultado preliminar, receberam o Prêmio de Aquisição Fundação Casa da Cultura Macedo Miranda, concedido ao conjunto da obra.


O prêmio, integra as três principais distinções do Salão. Por se tratar de um prêmio de aquisição, as obras contempladas são incorporadas ao acervo do MAM Resende, fazendo com que esta pesquisa sobre forma, espaço, cosmologia e Geometria Sagrada passe a integrar permanentemente a história da instituição.


Uma instituição pioneira no interior do Brasil

O Museu de Arte Moderna de Resende foi criado em 1950, por meio da Lei Municipal nº 100, sob a inspiração do escritor Marques Rebelo e com o apoio do escritor resendense José Carlos Macedo Miranda. Foi o primeiro museu de arte moderna fundado no interior brasileiro e o quarto do país — posição que lhe confere relevância muito além do cenário regional. Seu acervo reúne obras de artistas como Tarsila do Amaral, Iberê Camargo, Guignard, Lasar Segall, Oswaldo Göeldi, Alfredo Ceschiatti, Carlos Scliar e Santa Rosa.


Ao longo de sua trajetória, o MAM Resende tornou-se um ponto de articulação cultural no eixo Rio–São Paulo, aproximando a produção das cidades do Médio Paraíba dos circuitos nacionais de arte. Parte fundamental dessa história foi construída pelo Salão da Primavera, hoje em sua 53ª edição e reconhecido como uma das mais tradicionais mostras de artes visuais do interior do Estado do Rio de Janeiro. Mais do que uma competição, o Salão funciona como espaço de encontro, intercâmbio e visibilidade para artistas de diferentes regiões do Brasil.


Os prêmios de aquisição exercem um papel decisivo nesse processo: além de reconhecerem pesquisas artísticas contemporâneas, ampliam continuamente o patrimônio público do museu. Assim, diferentes gerações passam a coexistir dentro do acervo, formando uma memória visual na qual a história da arte não permanece encerrada no passado, mas continua sendo escrita.


Os artistas premiados em 2026

No resultado preliminar divulgado pela Secretaria Municipal de Cultura, o Prêmio Fundação Casa da Cultura Macedo Miranda foi atribuído a Maurício Brasilli; o Prêmio Altamiro Pimenta, instituído pela Prefeitura de Resende, foi concedido a Stefano Maglovsky; e o Prêmio Engenheiro Eitel César Fernandes, instituído pela Câmara Municipal de Resende, foi concedido a Yasmine Cortopassi.


O júri também conferiu menções honrosas a Alessuza, Beatriz Mardine, Bruna Ribas, Cazoba, Dael Daniel, Felipe Carvalho, João Bosco Millen, Joseph Figorelle, Monique Freitas, Palmira Villar, Paula Sebben, Rafa Trevis, Rafael Lima, Raphael Fava, Simone Cunha — SKA — e Wagner Coraça.


A diversidade dos artistas reconhecidos revela uma das principais virtudes do Salão da Primavera: reunir linguagens, gerações, técnicas e territórios distintos, oferecendo ao público um panorama vivo da produção artística contemporânea.


Convite para a abertura

A cerimônia de abertura do 53º Salão da Primavera acontecerá no dia 11 de setembro de 2026, às 18 horas, no Museu de Arte Moderna de Resende, situado na Rua Dr. Cunha Ferreira, nº 104, Centro Histórico de Resende, Rio de Janeiro.


A exposição permanecerá aberta ao público até 6 de novembro de 2026.


Convido todos os amigos, artistas, pesquisadores, estudantes e pessoas interessadas em arte, geometria, filosofia e cosmologia a participarem da abertura. Será uma alegria compartilhar pessoalmente esse momento e ver as obras reunidas no espaço do MAM Resende.


Geometrias do Cosmos: três obras, uma matriz geradora

As três obras premiadas formam um único campo de investigação visual, apresentado sob o título conceitual Geometrias do Cosmos — três investigações sobre forma, espaço e ordem geradora.


Todas foram construídas sobre uma matriz da Flor da Vida previamente impressa no papel. Embora permaneça parcialmente oculta, essa malha circular atua como uma gramática construtiva: vértices, arestas, eixos, sólidos e linhas de perspectiva surgem da ligação entre os centros e os pontos de interseção dos círculos.


A Flor da Vida deixa, portanto, de desempenhar uma função meramente ornamental. Torna-se um campo operativo do qual emergem projeções, espacialidades, arquiteturas imaginárias e estruturas tridimensionais. A multiplicidade visível nasce de uma ordem comum, estabelecendo uma passagem contínua do círculo ao poliedro, do plano ao volume e da geometria manifesta à matriz invisível que a sustenta.



A Máquina de Chilrear para Uso Cósmico - Nanquim sobre cartão - Mauricio Brasilli
A Máquina de Chilrear para Uso Cósmico - Nanquim sobre cartão - Mauricio Brasilli

Em A Máquina de Chilrear para Uso Cósmico, a célebre máquina imaginada por Paul Klee — e posteriormente reinventada pela poesia de Manoel de Barros — é ampliada até adquirir uma dimensão cosmológica. Anéis orbitais, estruturas mecânicas, aves e formas geométricas compõem um dispositivo simbólico capaz de converter o movimento do universo em canto. A máquina deixa de ser instrumento utilitário para tornar-se meio de escuta e comunicação entre matéria, imaginação e cosmos.



A Geometria do Plenum - Nanquim sobre cartão - Mauricio Brasilli
A Geometria do Plenum - Nanquim sobre cartão - Mauricio Brasilli

Em A Geometria do Plenum, a célula de Kelvin, estrutura poliédrica associada ao preenchimento do espaço, transforma-se em cartografia visual da continuidade da matéria. Redes e poliedros interligados sugerem um universo sem vazio absoluto, constituído por campos, relações e geometrias em permanente articulação. O espaço não aparece como recipiente inerte, mas como trama ativa e estruturante da realidade.



O Cubo no Espaço - Nanquim sobre cartão - Mauricio Brasilli
O Cubo no Espaço - Nanquim sobre cartão - Mauricio Brasilli

Em O Cubo no Espaço, o cubo é investigado como forma elementar de medida, estabilidade e orientação. Submetido a projeções, rotações, mudanças de escala e desdobramentos, ele oscila entre matéria e campo, construção e dissolução. Aquilo que parecia estático revela a mobilidade do espaço e a possibilidade de dimensões que ultrapassam a percepção imediata.





O antigo no interior do moderno

A presença da Geometria Sagrada em um museu de arte moderna não constitui uma contradição. A modernidade artística nunca significou simplesmente o abandono das formas antigas; significou também sua reinterpretação sob novas condições perceptivas, científicas e culturais.


Seria anacrônico atribuir diretamente a Platão o conceito contemporâneo e abrangente de “Geometria Sagrada”. Entretanto, no Timeu, escrito há mais de dois milênios, Platão já descrevia um cosmos no qual a inteligência ordenadora impõe proporção matemática ao caos. Tetraedro, octaedro, icosaedro e cubo são relacionados ao fogo, ao ar, à água e à terra, enquanto o dodecaedro aparece associado à configuração do universo. A geometria atua ali como mediação entre o modelo inteligível e o mundo sensível.

Poliedros desenhados por Da Vinci para “A Divina Proporção”, de Luca Pacioli (Reprodução)
Poliedros desenhados por Da Vinci para “A Divina Proporção”, de Luca Pacioli (Reprodução)

Durante o Renascimento, Luca Pacioli retomaria essa tradição em De divina proportione, obra ilustrada por Leonardo da Vinci com representações dos sólidos regulares e de suas estruturas internas.



Mais tarde, Johannes Kepler procuraria nos sólidos platônicos uma chave para a ordem planetária e ampliaria sua pesquisa geométrica em Harmonices Mundi. Mesmo quando suas hipóteses cosmológicas foram superadas, permaneceu o impulso que as originou: compreender a natureza por meio das relações entre forma, proporção e movimento.



A Máquina de Chilrear" (Die Zwitscher-Maschine), Paul Klee,1922.
A Máquina de Chilrear" (Die Zwitscher-Maschine), Paul Klee,1922.

A arte moderna herdou e transformou essa busca. Na Bauhaus, Paul Klee desenvolveu uma linguagem geométrica composta por linhas, sinais, ritmos, setas e símbolos, aproximando construção rigorosa e imaginação poética. Em sua obra, como nas pesquisas de Kandinsky e de outros artistas da abstração, a geometria não elimina a dimensão espiritual: oferece-lhe um novo vocabulário visual.


É nesse longo horizonte que situo Geometrias do Cosmos. As obras não procuram restaurar uma cosmologia antiga nem apresentar a geometria como comprovação literal de doutrinas metafísicas. Procuram investigar por que determinadas formas continuam mobilizando nossa percepção e nossa imaginação, atravessando templos, tratados filosóficos, modelos científicos, ateliês modernos e linguagens digitais.


A Escola de Atenas (Scuola di Atene) é um famoso afresco do pintor renascentista italiano Rafael Sanzio, pintado entre 1509 e 1511. A obra fica na Stanza della Segnatura, no Palácio Apostólico do Palácio Apostólico do Vaticano, e retrata os maiores filósofos e sábios da antiguidade clássica reunidos em harmonia.
A Escola de Atenas (Scuola di Atene) é um famoso afresco do pintor renascentista italiano Rafael Sanzio, pintado entre 1509 e 1511. A obra fica na Stanza della Segnatura, no Palácio Apostólico do Palácio Apostólico do Vaticano, e retrata os maiores filósofos e sábios da antiguidade clássica reunidos em harmonia.

Mais de dois mil anos depois de Platão, círculos, cubos, poliedros, redes e proporções continuam retornando como instrumentos de orientação diante do desconhecido. Talvez porque unam duas capacidades fundamentais do ser humano: medir o mundo e imaginar aquilo que ultrapassa toda medida.


Podemos chamar poeticamente esse fundo persistente de inconsciente atemporal: um depósito coletivo de formas elementares através das quais diferentes culturas procuram reconhecer ordem no cosmos e posição para si mesmas dentro dele.


Ao receber destaque no Museu de Arte Moderna de Resende, a Geometria Sagrada demonstra que não pertence somente ao passado. Ela permanece uma linguagem aberta, capaz de ligar arte, matemática, ciência, filosofia e experiência simbólica.


Esse é o seu fascínio sólido: a permanência das formas e, ao mesmo tempo, sua inesgotável capacidade de gerar novos mundos.




*Para saber mais, sobre as obras premiadas baixe o dossiê curatorial "GEOMETRIAS DO COSMOS" de Mauricio Brasilli








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