Palavra, Memória e Forma - unidade ontoepistemológica na cosmopráxis humana
- Mauricio Brasilli

- há 2 dias
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A unidade ontoepistemológica na cosmopráxis humana indica que o modo de conhecer (episteme) e o modo de existir (ontologia) formam um bloco só na ação concreta no mundo (práxis), conectando o ser humano ao cosmos de forma viva e integrada
Há uma questão anterior às fronteiras que hoje separam filosofia, ciência, linguagem, arte e cosmologia: de que maneira aquilo que existe torna-se experiência, conhecimento e, finalmente, ação consciente no mundo?
Responder a essa questão exige aproximar campos que a história do pensamento progressivamente especializou, mas que permanecem ligados na própria experiência humana.
Ontologia e epistemologia não são domínios inteiramente separáveis quando consideramos que toda concepção sobre o que existe condiciona aquilo que podemos conhecer, enquanto todo modo de conhecer reorganiza nossa maneira de habitar e transformar a realidade.
Surge, assim, a possibilidade de pensar uma integração epistemológica não como tentativa de reduzir diferentes saberes a uma única explicação, mas como investigação das relações que os atravessam. Percepção, memória, linguagem, forma, medida, simbolização e ação podem ser compreendidas como diferentes momentos de um mesmo processo pelo qual o ser humano entra em relação com o mundo, constrói conhecimento sobre ele e, simultaneamente, participa de sua transformação.
É nesse sentido que podemos falar em cosmopráxis: não apenas uma concepção intelectual do cosmos, mas uma maneira de agir a partir da compreensão de que conhecer o mundo já constitui uma forma de participação nele. O ser humano não se encontra simplesmente diante de uma realidade pronta, como observador exterior. Ele emerge dessa realidade, recebe suas determinações, interpreta-as e devolve ao mundo novas configurações por meio da palavra, da técnica, da arte, da arquitetura, do rito e das formas de organização coletiva.
Podemos então iniciar nossa investigação com uma proposição aparentemente simples: o que significa falar em uma "realidade experienciada"?
A própria expressão parece implicar a existência de algo que, embora inserido na realidade, não se confunde integralmente com ela. Um organismo recebe acontecimentos provenientes do meio por intermédio de seu aparato sensorial, integra-os segundo sua própria constituição e produz aquilo que reconhecemos como experiência. Contudo, aquilo que foi experimentado deixa imediatamente de pertencer ao presente para converter-se em memória.
É a partir desse movimento entre realidade, percepção, experiência e memória que poderemos perguntar como surgem mundos compartilhados e qual papel desempenham, nesse processo, três extraordinários instrumentos humanos: a palavra falada, a palavra escrita e a forma geométrica.
Teríamos, então, uma primeira sequência:
realidade - percepção - experiência - memória.
Essa sequência, porém, revela-se insuficiente assim que percebemos que a memória não constitui simplesmente um depósito do passado.O acontecimento anterior deixou de ocorrer, mas a memória dele continua podendo ocorrer no presente. O passado não está presente; a lembrança do passado está.
Por isso, a experiência não se organiza como uma linha simples. Ela constitui um circuito.
A memória participa continuamente da percepção presente, e aquilo que percebemos agora é informado por aquilo que já percebemos.
O presente experienciado possui, portanto, uma espessura temporal.
Nunca encontramos um instante absolutamente isolado. Aquilo que chamamos de "agora" traz consigo vestígios do instante anterior e expectativas acerca do instante seguinte. A fenomenologia de Edmund Husserl procurou descrever essa estrutura por meio das noções de retenção, impressão presente e protensão. Henri Bergson encontrou na duração uma temporalidade irredutível à sucessão mecânica dos relógios. Maurice Merleau-Ponty recolocou essa temporalidade dentro de um corpo situado, e Francisco Varela aproximou esses problemas filosóficos das ciências cognitivas contemporâneas.
A realidade experienciada não seria, portanto, uma cópia passiva do exterior. Ela emerge da relação entre aquilo que acontece e aquilo que um sistema é capaz de perceber, integrar e recordar.
É nesse ponto que surge uma segunda questão.
Como experiências individuais tornam-se experiências coletivas?
Como algo vivido por um organismo pode atravessar sua individualidade e passar a participar da constituição da realidade de outro?
É aqui que palavra falada, palavra escrita e forma geométrica adquirem uma importância extraordinária. Talvez essas três manifestações possam ser compreendidas como tecnologias fundamentais através das quais os seres humanos produzem continuidade entre diferentes experiências.
A palavra falada organiza o tempo.
A palavra escrita exterioriza a memória.
A geometria preserva relações.
E da convergência das três emerge uma possibilidade decisiva: a transmissão de estruturas de experiência.
A palavra falada e a sincronização dos mundos
A palavra falada existe primordialmente no tempo. Uma voz produz variações de pressão no ar. Essas variações alcançam outro organismo, são transformadas em impulsos neurais e interpretadas dentro de uma estrutura linguística adquirida culturalmente. O fenômeno físico é relativamente simples. Seu efeito cognitivo não é.
Uma pessoa pode dizer: "Há um rio depois da montanha." Outra pessoa talvez nunca tenha visto nem aquele rio nem aquela montanha. Ainda assim, uma sequência de vibrações acústicas produz nela uma configuração mental correspondente a uma situação ausente.
Alguma coisa aconteceu.
Uma experiência existente em um indivíduo foi parcialmente convertida em signos e reconstruída dentro de outro.
A experiência de uma pessoa transforma-se em signo, e o signo torna-se matéria para uma experiência possível em outra pessoa.
Naturalmente, as duas experiências nunca são idênticas. Cada consciência reorganiza aquilo que recebe segundo sua própria história, seu corpo, sua memória e seu horizonte cultural. Mas elas podem tornar-se estruturalmente correlacionadas.
A linguagem permite, assim, uma espécie de acoplamento entre mundos experienciais. Essa propriedade ajuda a compreender a importância antropológica da narrativa, do mito, do canto, da oração, da fórmula ritual e da recitação.
Quando uma comunidade repete uma cosmogonia através de gerações, não está apenas comunicando informações. Está estabelecendo estruturas compartilhadas de interpretação.
Certos lugares tornam-se sagrados.
Certas estrelas tornam-se ancestrais.
Certas direções adquirem significados.
Certas ações passam a possuir consequências morais ou cosmológicas.
A palavra começa então a funcionar como uma verdadeira arquitetura invisível. Ela organiza não paredes e pedras, mas relações entre seres, acontecimentos e significados. Não seria exagerado dizer, nesse sentido, que toda cultura é também uma determinada maneira de pronunciar o mundo. Em numerosas tradições cosmogônicas, essa intuição aparece de maneira ainda mais radical.
O mundo não apenas recebe nomes depois de criado. Em certos sistemas míticos, o mundo surge pela palavra.
O Logos grego e cristão, o Vac védico, determinadas concepções egípcias da palavra criadora e as formulações presentes nas tradições Guarani acerca da palavra-alma pertencem a universos culturais muito diferentes e não devem ser reduzidos uns aos outros. Contudo, existe entre eles uma recorrência estrutural digna de atenção: a palavra aparece não apenas como descrição da realidade, mas como princípio de ordenação.
A fala torna-se cosmológica.
A escrita e a invenção da memória exterior
A escrita realiza uma transformação diferente. Quando uma palavra é pronunciada, sua existência física desaparece quase imediatamente. Quando é escrita, algo do acontecimento pode sobreviver ao corpo que o produziu.
Uma marca permanece sobre pedra, argila, pergaminho, papel ou algum suporte digital. A memória deixa então de depender exclusivamente do organismo.
O conhecimento pode sobreviver ao indivíduo.
Essa mudança representa uma das grandes mutações cognitivas da história humana. Com a escrita nasce uma forma de memória exteriorizada.
Podemos esquecer um teorema e recuperá-lo consultando um livro.Podemos morrer e deixar uma carta. Uma civilização pode desaparecer e, milhares de anos depois, alguém reconstruir parte de suas ideias observando inscrições preservadas. A escrita produz, portanto, algo que nenhum cérebro individual poderia conter: uma memória distribuída através de indivíduos, gerações e suportes.
A memória coletiva torna-se maior do que a memória de qualquer indivíduo isolado.

A biblioteca transforma-se em extensão da mente.
O arquivo torna-se extensão da sociedade.
O texto torna-se uma espécie de organismo temporal.
Nessa perspectiva, a escrita permite uma transformação fundamental da experiência.
A fala conecta consciências presentes.
A escrita conecta consciências separadas pelo tempo.
Se a palavra oral produz sincronização, a escrita produz continuidade histórica. É também por meio dela que religiões, ciências, sistemas jurídicos, genealogias, astronomias e cosmologias deixam de depender exclusivamente da transmissão oral.
A experiência começa a acumular-se. A humanidade passa a construir um corpo de memória maior do que qualquer ser humano poderia experienciar durante uma vida.
Podemos encontrar aqui uma aproximação possível com a ideia de noosfera de Teilhard de Chardin, compreendida não necessariamente em seu sentido metafísico integral, mas como imagem de uma crescente camada de informação, símbolos e conhecimento produzida pela humanidade e capaz de retroagir sobre os próprios indivíduos que a constituíram.
A escrita torna possível uma realidade surpreendente: os mortos continuam participando da experiência dos vivos.
A geometria e a permanência da relação
A geometria introduz ainda outra possibilidade. Enquanto a palavra geralmente nos remete a significados, acontecimentos ou conceitos, a geometria é capaz de preservar relações independentemente dos objetos particulares nos quais essas relações aparecem.
Um triângulo desenhado no papel não é simplesmente composto por três linhas. Ele manifesta um sistema de relações.
Possui vértices, lados, ângulos, interior, exterior e orientação.
Pode ser ampliado ou reduzido e ainda continuar sendo reconhecido como triângulo.
Determinadas relações permanecem apesar das transformações.
É aqui que surge uma das ideias fundamentais de toda a matemática: a invariância.
Aquilo que permanece quando alguma coisa muda.
Uma árvore desaparece. Um edifício desaparece. Uma cultura inteira pode desaparecer. Mas uma relação geométrica, uma vez descoberta, pode ser reencontrada.
O teorema tradicionalmente associado a Pitágoras, por exemplo, não depende da permanência de nenhum triângulo particular. A relação entre os lados de um triângulo retângulo continua válida sempre que determinadas condições geométricas são satisfeitas.
Talvez esteja aqui uma das razões profundas pelas quais a geometria adquiriu importância filosófica tão extraordinária desde a Antiguidade. Ela parecia oferecer acesso não simplesmente às coisas, mas às relações que poderiam ordenar as coisas. Platão percebeu precisamente essa peculiaridade.
As figuras desenhadas pertencem ao mundo sensível e são imperfeitas. O círculo traçado por uma mão nunca é perfeitamente circular. Entretanto, através desse círculo imperfeito, a inteligência pode conceber relações que ultrapassam qualquer instância material particular.
A geometria situa-se, assim, em uma região fascinante entre percepção e abstração.
Podemos então reconhecer uma tríade fundamental.
A fala está profundamente associada à temporalidade.
A escrita está associada à memória.
A geometria está associada à relação e à invariância.
Juntas, elas permitem a transmissão de estruturas através de diferentes corpos, lugares e épocas.
Da experiência individual à realidade compartilhada
Talvez possamos agora construir um esquema mais amplo.
Existe primeiro alguma forma de realidade ou acontecimento.
Um organismo entra em relação com ela.
Alguns aspectos dessa relação tornam-se percepção.
A percepção integrada constitui experiência.
Parte da experiência transforma-se em memória.
A memória pode produzir signos.
Esses signos alcançam outros organismos.
E esses organismos passam a integrar os signos dentro de novas experiências.
Nesse circuito ocorre uma transformação decisiva. A experiência deixa de pertencer exclusivamente ao indivíduo. Ela ganha existência cultural.
Começa a circular.
Uma caçada pode transformar-se em narrativa.
Uma narrativa pode transformar-se em mito.
O mito pode transformar-se em rito.
O rito pode determinar a arquitetura de um templo.
A arquitetura pode reproduzir determinadas proporções cosmológicas.
As proporções podem ser registradas geometricamente.
O desenho pode atravessar séculos.
Outro indivíduo pode encontrar esse desenho e produzir uma nova experiência.
O circuito recomeça.
A realidade compartilhada humana parece emergir justamente dessa extraordinária capacidade de exteriorizar relações e reinseri-las em outras consciências.
Um mundo ou muitos mundos?
Essa reflexão conduz também a uma distinção necessária quando tentamos estender a experiência do microcosmo ao macrocosmo.
Átomos interagem.
Moléculas interagem.
Células detectam gradientes químicos e respondem ao ambiente.
Organismos possuem capacidades progressivamente mais complexas de percepção e ação.
Mas não possuímos evidência científica de que átomos ou planetas "experienciem" a realidade no mesmo sentido em que animais dotados de sistemas nervosos a experienciam.
Existem posições filosóficas, como diferentes formas de panpsiquismo, panexperiencialismo e a filosofia do processo de Alfred North Whitehead, que procuram atribuir algum grau elementar de interioridade ou experiência aos componentes fundamentais da realidade.
Essas posições permanecem filosoficamente importantes, mas não constituem consenso científico. Convém, portanto, distinguir experiência de relação.
Podemos falar seguramente de sistemas relacionais em diferentes escalas. Átomos, moléculas, células, organismos, ecossistemas, planetas e sistemas estelares participam de redes de interação. A questão da experiência subjetiva exige uma investigação adicional.
Essa distinção não enfraquece a intuição inicial. Ao contrário, torna-a mais precisa.
Em lugar de supor que todos os níveis do cosmos experienciam da mesma maneira, podemos investigar se existem formas relacionais que atravessam escalas diferentes da realidade.
Esse problema aproxima a discussão de Jakob von Uexküll e de sua noção de Umwelt. Cada organismo habita um mundo condicionado pelas diferenças que consegue perceber.
A floresta de um morcego não é exatamente a floresta de uma abelha.
A floresta de uma abelha não é a floresta de uma árvore.
E nenhuma delas coincide perfeitamente com a floresta experienciada por um ser humano.
Aquilo que chamamos simplesmente de "mundo" talvez seja, em termos fenomenológicos, uma constelação de mundos parcialmente sobrepostos.
Em vez de pensarmos simplesmente em um único mundo observado de múltiplos pontos de vista, talvez possamos imaginar uma realidade relacional da qual emergem múltiplos mundos experienciados.
A linguagem, a escrita e a geometria tornam-se então ferramentas extraordinárias porque permitem construir zonas de interseção entre mundos.
A relação anterior à forma
Nesse ponto, surge uma hipótese mais profunda.
Talvez palavra falada, escrita e geometria não sejam três princípios absolutamente independentes.Talvez exista algo anterior a elas. A relação.
Uma palavra preserva uma relação conceitual.
Uma frase preserva relações entre palavras.
Um texto preserva essas relações através do tempo.
Uma figura geométrica explicita relações espaciais.
Uma equação representa relações quantitativas.
Uma música organiza relações temporais entre frequências.
Um organismo existe através de relações entre seus componentes.
Um ecossistema existe através de relações entre organismos e ambiente.
Um sistema planetário existe através de relações gravitacionais.
Talvez aquilo que chamamos de "forma" seja precisamente uma maneira pela qual relações se tornam discerníveis. A realidade, percebida através das relações, manifesta-se como forma; a forma percebida pode tornar-se experiência.
A forma não precisaria ser entendida apenas como contorno visual. Uma forma poderia ser qualquer organização reconhecível de relações. Sob essa perspectiva, uma molécula possui forma.
Uma melodia possui forma.
Uma narrativa possui forma.
Um organismo possui forma.
Uma sociedade possui forma.
Uma órbita possui forma.
Uma demonstração matemática possui forma.
A própria experiência possui forma.
A geometria deixa então de ser exclusivamente o estudo das figuras e aproxima-se de uma pergunta muito mais radical:
Quais relações permanecem através das transformações?
Da geometria euclidiana à geometria projetiva, da topologia à teoria dos grupos, grande parte da matemática moderna pode ser compreendida precisamente como uma exploração crescente dessa pergunta.
O que permanece?
O que muda?
Que transformação preserva determinada estrutura?
É possível que essas perguntas matemáticas constituam também instrumentos filosóficos extraordinariamente férteis para uma epistemologia da Geometria Sagrada.
O nascimento do mundo intersubjetivo
Se experiências individuais podem ser convertidas em signos e esses signos podem organizar novas experiências, começamos a compreender aquilo que poderíamos chamar de realidade intersubjetiva.
Uma fronteira política é um exemplo simples.
Do ponto de vista geológico, pode não existir qualquer descontinuidade entre dois lados de uma linha territorial. Contudo, mapas, documentos, discursos, leis, marcos físicos e práticas sociais fazem essa linha produzir consequências reais.
Algo semelhante ocorre com moedas, calendários, genealogias, títulos, símbolos religiosos e instituições.
Isso não significa que sejam irreais. Significa que sua realidade depende de formas específicas de coordenação coletiva. A civilização pode então ser compreendida como uma vasta tecnologia de compartilhamento e estabilização de mundos.
A fala permite compartilhar experiências através do espaço.
A escrita permite compartilhá-las através do tempo.
A geometria permite compartilhar relações independentemente das experiências particulares das quais emergiram.
Quando essas três dimensões se encontram, aparecem algumas das construções mais poderosas da história humana: o templo, a cidade, o calendário, o mapa, o tratado matemático, o texto religioso, o diagrama cosmológico, o monumento, o rito e a obra de arte.
Em todos esses casos, palavra, memória e forma passam a colaborar na produção de uma realidade compartilhada.
Mestres, guias, reis e aqueles que moldam mundos
Essa constatação nos conduz inevitavelmente à questão do poder. Ao longo da história, aqueles capazes de dominar palavra, memória e forma frequentemente ocuparam posições privilegiadas na construção das realidades coletivas.
O sacerdote domina narrativas cosmológicas.
O poeta organiza a memória de um povo.
O escriba controla registros.
O legislador transforma palavras em normas.
O arquiteto organiza corpos através do espaço.
O cartógrafo transforma território em representação.
O matemático descreve relações abstratas.
O soberano procura reunir essas funções sob uma determinada ordem simbólica.
Talvez por isso tantas tradições tenham apresentado o rei ideal não simplesmente como guerreiro, mas como legislador, construtor, juiz, astrônomo, sacerdote ou sábio. Governar significava, em alguma medida, estabelecer uma ordem entre céu, terra, sociedade e indivíduo.
Contudo, existe aqui uma diferença essencial. Dominar signos produz poder. Não produz necessariamente sabedoria.
O propagandista domina palavras.
O demagogo organiza narrativas.
O império produz mapas.
A burocracia controla arquivos.
A propaganda mobiliza imagens.
Essas mesmas tecnologias capazes de produzir mundos compartilhados podem também produzir mundos manipulados.
Por isso, o conhecimento da palavra, da escrita e da forma precisa ser acompanhado por uma ética. Talvez o verdadeiro mestre seja aquele no qual capacidade, conhecimento e responsabilidade permanecem inseparáveis. A questão deixa então de ser simplesmente: Como adquirir poder para moldar a realidade? E torna-se:
Como participar conscientemente da construção da realidade sem confundir nossas representações com a própria realidade?
Aqui pode estar uma distinção fundamental entre o sábio e o manipulador.

De onde viria o conhecimento?
Se procuramos compreender profundamente esses processos, dificilmente encontraremos uma única disciplina capaz de abarcá-los. A própria natureza da pergunta exige uma epistemologia interdisciplinar.
A fenomenologia investiga como algo aparece à consciência.
A ciência cognitiva investiga como organismos integram informação.
A semiótica investiga como signos representam e produzem relações.
A linguística investiga como sistemas simbólicos estruturam comunicação e pensamento.
A antropologia investiga como diferentes culturas constroem mundos.
A geometria investiga estruturas espaciais e invariantes.
A topologia pergunta o que permanece quando as formas sofrem transformações contínuas.
A teoria dos grupos formaliza simetrias e transformações.
A física investiga relações que permanecem invariantes através de mudanças de referência.
A biologia investiga organização, informação, adaptação e emergência.
A filosofia pergunta o que todas essas descrições significam.
Charles Sanders Peirce talvez ocupe uma posição particularmente importante nessa investigação. Sua relação triádica entre signo, objeto e interpretante impede que tratemos o signo simplesmente como uma cópia passiva da realidade. Um signo representa algo e produz um efeito interpretativo. A significação torna-se processo.
Ernst Cassirer amplia esse horizonte ao compreender o ser humano como animal symbolicum: um ser que habita sistemas simbólicos, como linguagem, mito, religião, arte e ciência.
Gregory Bateson desloca novamente o problema ao tratar informação como uma diferença capaz de produzir outra diferença.
Jakob von Uexküll mostra que os mundos dos organismos dependem das diferenças às quais conseguem responder.
Merleau-Ponty restitui o corpo à experiência.
Peirce restitui a mediação.
A geometria restitui a relação.
A antropologia restitui a pluralidade dos mundos.
Juntas, essas tradições talvez permitam compreender melhor aquilo que as antigas cosmologias procuravam expressar através de outras linguagens.
Microcosmo e macrocosmo
A antiga correspondência entre microcosmo e macrocosmo aparece frequentemente em tradições filosóficas, religiosas e esotéricas.
O corpo humano pode representar o cosmos.
O templo pode representar o corpo.
A cidade pode representar uma ordem celestial.
O altar pode representar uma montanha primordial.
O círculo pode representar totalidade.
O centro pode representar origem.
Essas correspondências não devem ser confundidas automaticamente com identidades físicas. Uma analogia não é uma equivalência causal. Mas isso não torna a analogia epistemologicamente inútil. A ciência utiliza analogias constantemente.
Modelos são formas controladas de analogia. A questão fundamental é saber quais propriedades estão sendo comparadas e quais não estão.
Quando uma relação semelhante aparece em sistemas diferentes, podemos perguntar se estamos diante de mera semelhança visual, convergência funcional, homologia histórica ou verdadeiro isomorfismo estrutural.
Esse vocabulário permite renovar criticamente a antiga doutrina do microcosmo e macrocosmo.
A pergunta deixa de ser: "Tudo no pequeno reproduz literalmente tudo no grande?"
E torna-se: "Quais relações podem ser preservadas quando atravessamos diferentes escalas de organização?"
Essa mudança é decisiva. Ela desloca a investigação da correspondência simbólica arbitrária para o estudo de invariâncias, analogias estruturais e transformações. É precisamente aqui que a geometria pode reencontrar sua dimensão filosófica.
Quando uma geometria se torna sagrada?

Chegamos então à questão da Geometria Sagrada. Geralmente começa-se procurando figuras consideradas sagradas.
O círculo.
O triângulo.
A Vesica Piscis.
A Flor da Vida.
Os sólidos platônicos.
A proporção áurea.
Mandala e yantra.
Diagramas cosmológicos.
Plantas de templos.
Proporções arquitetônicas.
Mas talvez essa seja uma pergunta tardia. Antes de perguntar quais formas são sagradas, talvez devamos perguntar:
O que significa uma forma tornar-se sagrada?
E aqui se abre uma hipótese. Talvez uma forma se torne sagrada quando passa a funcionar como mediadora entre níveis distintos da experiência.
Quando uma mesma configuração consegue articular corpo, comunidade, paisagem e cosmos, ela deixa de ser apenas desenho. Torna-se operador cosmológico.
O mandala não seria importante simplesmente por possuir determinados círculos e quadrados. Seu significado emerge da relação entre forma, rito, corpo, orientação, visualização e cosmologia. O yantra não seria sagrado simplesmente por apresentar triângulos. É a rede de relações estabelecida entre figura, mantra, divindade, prática ritual e consciência que constitui seu funcionamento simbólico.
Um templo não se torna sagrado apenas porque utiliza proporções matemáticas. Sua geometria participa de uma rede que envolve orientação astronômica, circulação ritual, hierarquia espacial, narrativa cosmológica, memória ancestral e experiência corporal.
O sagrado surge, portanto, menos como propriedade isolada da figura e mais como relação entre forma e mundo.
A forma como operador de continuidade
Podemos então propor uma nova definição provisória.
Uma forma sagrada seria uma estrutura capaz de atuar como operador de continuidade entre diferentes escalas da realidade e da experiência.
Ela pode conectar percepção e pensamento; corpo e espaço; indivíduo e comunidade; presente e ancestralidade; território e cosmos; experiência e memória; forma sensível e relação abstrata.
Sua função não seria necessariamente representar literalmente o universo. Seria construir uma passagem inteligível entre ordens diferentes.
Nesse sentido, o sagrado talvez não esteja na figura isolada. Está no atravessamento que a figura permite.
A percepção pode tornar-se forma.
A forma pode tornar-se memória.
A memória pode tornar-se linguagem.
A linguagem pode alimentar uma cosmologia.
A cosmologia pode estruturar um rito.
O rito pode reorganizar a experiência.
O processo torna-se circular. Uma comunidade cria formas para representar sua experiência do cosmos. Essas formas passam a organizar as experiências das gerações posteriores.
O símbolo inicialmente produzido pelo ser humano começa a produzir seres humanos capazes de reconhecê-lo. Essa retroalimentação talvez seja um dos fundamentos daquilo que chamamos tradição.
Geometria Sagrada como epistemologia da relação
Se essa hipótese estiver correta, o entendimento da "Geometria Sagrada" precisaria deslocar seu centro.
Em vez de constituir um catálogo de formas supostamente universais, ela deveria tornar-se uma investigação sobre como relações atravessam escalas de realidade através da percepção, da linguagem, da memória e da forma.
A pergunta principal deixaria de ser: Quais figuras são sagradas?
E passaria a ser: Em que condições uma estrutura geométrica passa a funcionar como mediadora entre diferentes níveis da experiência humana e do cosmos representado?
Essa mudança tem consequências importantes. Ela permite separar investigação histórica de especulação metafísica. Permite distinguir analogias simbólicas de isomorfismos matemáticos. Permite comparar tradições sem reduzi-las umas às outras.
Permite compreender por que determinadas formas reaparecem em culturas diferentes sem concluir precipitadamente que todas possuem a mesma origem ou o mesmo significado.
Permite ainda aproximar campos que hoje parecem separados: geometria, topologia, teoria das simetrias, fenomenologia, semiótica, antropologia, cognição, história das religiões, arquitetura, arte e cosmologia.
A Geometria Sagrada passaria então a ocupar não um território marginal entre ciência e religião, mas uma fronteira epistemológica muito precisa:
"o estudo das formas através das quais seres humanos procuram reconhecer, representar e participar das relações que constituem o mundo."
Participar, e não apenas representar
Há ainda uma consequência final.
Quando desenhamos, escrevemos, pronunciamos, construímos ou ritualizamos uma forma, não estamos apenas descrevendo uma realidade previamente concluída. Estamos produzindo novas condições para a experiência.
Uma palavra pode mudar uma decisão.
Uma lei escrita pode reorganizar uma sociedade.
Um mapa pode transformar um território.
Uma arquitetura pode alterar comportamentos.
Uma imagem pode modificar uma memória.
Um diagrama pode produzir uma descoberta científica.
Uma forma pode reorganizar a maneira pela qual percebemos outras formas.
Nesse sentido, o ser humano não é apenas observador do mundo. É participante. Sua atividade simbólica retroage sobre a realidade que experiencia. Mas isso não significa que a realidade seja produto arbitrário da mente. O mundo oferece resistência.
Uma ponte mal calculada cai.
Um organismo privado de água morre.
Uma teoria incompatível com observações precisa ser corrigida.
Existe, portanto, uma tensão permanente entre construção e resistência. Criamos mundos simbólicos, mas não criamos livremente todas as condições às quais esses mundos devem responder.
Essa talvez seja uma das posições mais fecundas entre dois extremos: nem um realismo ingênuo, no qual simplesmente copiamos passivamente um mundo pronto, nem um construtivismo absoluto, no qual qualquer realidade poderia ser inventada.
Habitamos uma realidade relacional da qual participamos.
Recebemos.
Interpretamos.
Memorizamos.
Nomeamos.
Desenhamos.
Construímos.
Transmitimos.
E aquilo que transmitimos passa a participar da experiência daqueles que vêm depois.
Talvez seja justamente isso que permita compreender, sob uma nova luz, a antiga imagem do ser humano como microcosmo. Não porque carreguemos dentro de nós uma réplica literal do universo. Mas porque somos um lugar no qual relações do universo tornam-se experiência, memória, palavra e forma. E através dessas formas podemos devolvê-las ao mundo.
A Geometria Sagrada poderia então ser investigada como uma ciência filosófica dessa reciprocidade. Não simplesmente como o estudo de círculos, triângulos, polígonos ou proporções. Mas como o estudo de como determinadas configurações conseguem atravessar domínios diferentes sem perder completamente sua identidade relacional.
Uma geometria da continuidade.
Uma geometria da participação.
Uma geometria da memória.
Uma geometria daquilo que permanece enquanto tudo se transforma.
Talvez, portanto, a investigação precise começar antes da pergunta sobre quais formas são sagradas. Precisamos investigar se aquilo que torna uma geometria sagrada é justamente sua capacidade de atravessar percepção, linguagem, memória e cosmos, funcionando como operador de continuidade entre escalas de realidade.
Se assim for, a Geometria Sagrada deixa de ser apenas um conjunto tradicional de símbolos. Ela se torna uma epistemologia da relação. E a questão que a acompanha deixa de ser apenas: "Que forma possui o universo?" para tornar-se algo muito mais profundo:
"Por quais formas o universo pode tornar-se experiência e por quais formas a experiência pode novamente participar da construção do mundo?"




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